quarta-feira, 3 de agosto de 2011

ORÚKO



            “O presente texto pretende mostrar a importância dada pelos Yorùbá tradicionais à escolha do nome pessoal (Orúko) de seus filhos e anunciado no ritual denominado “Ikómojáde”, bem como sua correspondência dentro do Processo Iniciático para Òrìsà ou “Feitura de Santo” no Candomblé de raízes Kétu.”

            Segundo maior grupo étnico da Nigéria, dentre os cerca de 250 grupos étnicos existentes, os Yorùbá estão presentes principalmente em estados localizados no sudoeste nigeriano, onde é maioria, e ainda em algumas cidades da República do Benin (antigo Daomé).
            A história deste povo tem início antes da era cristã. Eles fizeram parte de um dos grandes Impérios constituídos na região hoje ocupada pela Nigéria: O Império Yorùbá.
            Segundo as tradições locais, que mistura dados históricos com mitológicos, o Império Yorùbá tem início com a chegada de “Odùduwà” e seus seguidores, na região onde hoje é a cidade de Ifè, no estado de Òsún; ele teria expulsado os líderes locais e iniciado ali o seu reinado.
            Após estabelecer o reino de Ifè, Odùduwà teria enviado seus filhos para a conquista de terras vizinhas, assim, a partir do reino de Ifè outros reinos foram estabelecidos pelos seus descendentes. Esses reinos evoluíram ao longo dos séculos, baseados no comércio e na agricultura.
            Do contato com os primeiros europeus, a partir do século XV, resultou a colonização da Nigéria pelos ingleses no final do século XIX, mas mesmo com a administração inglesa, os Yorùbá mantém o seu sistema de governo tradicional, que hoje procura conviver com o governo civil presidencialista.
            Atualmente, antigos costumes como a escolha do nome de uma criança, só são mantidos pelos Yorùbá mais tradicionais, no entanto essa prática era comum antes da introdução dos costumes ocidentais.
            Para entender a importância da escolha do nome, precisamos ter uma noção da religiosidade Yorùbá e da importância dada à “palavra”, por esse povo de tradição oral que só conhece a escrita a partir do contato com os colonizadores. 
            Os Yorùbá concebem que a existência transcorre em dois planos: no aiyé, isto é, o universo físico com todos os seres naturais que o habitam, e no òrun, o espaço sobrenatural, um mundo  paralelo ao mundo real, habitado pelos espíritos de seus ancestrais.
            A religião tradicional Yorùbá consiste no culto à Olóòrun, o “Criador do aiyé e do òrun”, através de “ancestrais divinizados” denominados Òrìsà. Os Yorùbá acreditam que os Òrìsà são uma extensão de Olóòrun, que através deles intervém nos problemas humanos, sendo assim rezando para “Eles”, podem interferir positivamente em suas vidas.
            Òrúnmìlá é considerado o precursor e estruturador da “religião” dos Yorùbá. Acreditam que ele introduziu em Ifè a prática da consulta ao “Oráculo de Ifá”, através da qual, pela utilização de alguns “instrumentos”, o Bàbáláwo (Sacerdote de Ifá) verifica o destino de uma pessoa, que é traduzido por signos gráficos denominados “Odù”.
            Para os Yorùbá, a palavra conduz um poder de realização, denominado “Àse”, que coloca em movimento e desperta as forças que estão estáticas nas coisas. Cada palavra proferida é única, ela comunica a experiência de uma geração à outra, transmite o Àse dos antepassados à geração do presente.
            Sikiru Salami  diz que: “A palavra, considerada elemento de origem divina, força fundamental emanada do próprio Ser Supremo, é, ela própria, instrumento de criação. Considerada um dom do pré-existente serve de instrumento à materialização e exteriorização de forças vitais” (Sikiru Salami, 1997, p. 44).
            Por ocasião do nascimento dos filhos, a mulher Yorùbá e o recém-nascido permanecem em casa até o dia do Ikómojáde, ritual tradicional durante o qual o nome da criança é anunciado para a família e para a comunidade. O Ikómojáde é uma prática antiga entre os Yorùbá, e tem por objetivos anunciar o nome da criança, dar a ela as boas vindas e felicitar os seus pais.
Tradicionalmente, se a criança era um menino, recebia o nome no nono dia de vida, se era uma menina, no sétimo dia, e se eram gêmeos, no oitavo dia. Nos dias atuais, a escolha tem acontecido no oitavo dia, independente do gênero e número de crianças nascidas.
            Antes porém, do Ikómojáde, no terceiro dia após o nascimento, um Bàbáláwo é chamado para realizar o Àkosèjayè, ritual divinatório que objetiva obter dados a respeito do destino do novo membro que está chegando para aquela família e indagar sobre seu futuro. São verificados quais os Odù que direcionam a vida da criança, e como conseqüência quais “Èèwò” (interdições alimentares e de conduta) que a criança deverá obedecer para facilitar seu desenvolvimento material e espiritual.
            O nome, que deve ser escolhido previamente ao dia da cerimônia, pode ter a influência das circunstâncias que cercam o nascimento da criança, sendo nesse caso denominado“Orúko Àmútoruwá” (nome trazido ao nascer) ou “Isomolóruko” (ato de escolher o nome do recém nascido, com a observância à cerca do fato). Os orúko àmútoruwá ou isomolóruko indicam circunstâncias da gestação ou do parto,  circunstâncias familiares ou da sua comunidade.
            Dentre os orúko àmútoruwá os mais importantes são os relacionados a gêmeos: O nome do primeiro nascido será sempre Taiwo (experimentar a vida), e o último sempre Kèhìndé (último a chegar). A criança nascida após a gestação de gêmeos recebe o nome de IdowuIge é o nome dado à criança nascida com apresentação dos pés; Dàda, o nome dado á criança nascida com cabelos encaracolados.
            São exemplos de nomes determinados por circunstâncias familiares: Bàbátúndé (papai retornou), dado à criança nascida após a morte de um avô e Ìyábo (mamãe retornou), dado à criança nascida após a morte da avó.
            Se uma criança nasce durante o Ano Novo ou durante um Festival Anual, recebe o nome de Àbíodún.
            Se a criança não traz um nome ao nascer, ou seja, um orúko àmútoruwá, a família terá que decidir pela sua escolha, sendo nesse caso  denominado “Orúko Àbíso”.
            Há um provérbio yorùbá que diz: “os pais devem sempre olhar para a sua casa, antes de escolher o nome de uma criança”, devendo-se entender a  palavra ‘casa’, como a ‘família’. Os orúko àbiso são escolhidos após um estudo sobre a família, em aspectos como profissão, ancestralidade, òrìsà cultuado, etc.
            A grande importância dada ao orúko àbíso é que, segundo o entendimento Yorùbá, ele irá refletir diretamente na vida daquele indivíduo. Esse entendimento está relacionado à importância atribuída à “palavra”, ou seja, à medida que aquele nome é pronunciado estará agindo na vida e no comportamento daquele que o carrega, logo, a escolha do “nome ideal” é uma tarefa muito importante, pois é por este nome que o indivíduo será chamado durante toda a sua vida.
            A criança nascida em uma família que cultua o Òrìsà Ògún pode receber um nome que evidencia essecompromisso: Ògúndo (Ògún traz/trouxe prosperidade) ou Àgbèdédo ( a forja trouxe prosperidade); se for Sòngó: ngódéye (ngó trouxe este filho) ou  ngóbunmi (ngó me deu de presente).
            Alguns orúko àbíso:

           
Masculinos
Femininos
Àbíáyomi (nascido para me trazer alegria)
Dáyo (alegria alcançada)
Akin (homem valente)
Àyomidé (minha alegria chegou)
Àyodélé (alegria vem ao lar)
Fúnmiláyo (deu-me felicidade)
Olákúndé (o valoroso chegou)
Olábunmi (minha honra foi recompensada)

            Tradicionalmente o Ikómojáde acontece fora da casa, ao ar livre, de forma que os pés descalços da criança possam tocar à terra pela primeira vez. A cerimônia marcará a primeira vez que a criança e sua mãe saem de casa. Dentre os convidados estão parentes e membros da comunidade, que vêm dar as boas vindas à criança e felicitações aos pais.
            A mãe da criança a apresenta à um ancião da família, que realizará o Ikómojáde. O papel que os anciões da família exercem no Ikómojáde tem uma importância simbólica e tradicional: eles acreditam que a criança veio de onde eles se preparam para ir, o òrun, por causa desse laço, o ancião da família deve ser o primeiro a guiar os primeiros passos da criança recém chegada.
            No Ikómojáde uma série de elementos são utilizados: epo-pupa (azeite de dendê), oyin (mel), obi e orogbo (noz de cola), atare (pimenta da costa), omi (água), ìrèkè (cana-de-açucar), iyò (sal), òti (bebida destilada), etc.
Cada um desses elementos é encostado na cabeça da criança e em sua boca, enquanto se recita as suas propriedades vitais. Ao apresentar esses elementos à criança, pretende-se que cada um deles forneça a ela um determinado atributo, relacionado ao seu significado simbólico. Assim, o obi é utilizado para protegê-la da doença e da morte prematura; a pimenta da costa favorece a vitória sobre os inimigos e obstáculos ao longo da vida; o sal é voto de longevidade; a cana-de-açúcar e o mel são usados para atrair circunstâncias agradáveis; etc. Depois que cada elemento é oferecido à criança, será oferecido também a todos os presentes.  
            Depois que a criança recebe a força desses elementos, seu nome lhe é atribuído por meio de uma recitação que pede sucesso, saúde e felicidade. A cerimônia termina com uma grande festa.
            A partir da colonização da Nigéria pela Inglaterra, os Yorùbá passam a usar nomes com influência cristã e islâmica. Algumas famílias, no entanto, usam o nome principal de acordo com o modelo ocidental, deixando para o sobrenome o nome tradicional Yòrubá.

            No nosso entender, tendo como referência autores como Juana Elbein dos Santos, o “Terreiro de Candomblé” surge no Brasil do século XIX, como uma necessidade de recriar o espaço geográfico Yorùbá, assim como as suas relações familiares, perdidas com o tráfico de escravos. Os laços de parentesco deixam de ser de sangue, para ser simbólicos, no entanto o objetivo é reproduzir a família Yorùbá tradicional.  
              Dentro desse contexto é que acreditamos que muitos dos gestos e atitudes que reproduzimos hoje em nossas “Casas de Santo”, são as reproduções do dia a dia desse povo.
            Não estamos querendo com isso diminuir o valor dos rituais praticados, mais sim simplificá-los e entendê-los dentro de um contexto cultural diferente do nosso.
            Assim é que analisamos o Ikómojáde dentro do Processo Iniciático para Òrìsà ou “Feitura de Santo” nos Candomblé de raízes Kétu no Brasil. 
            A Iniciação para Òrìsà implica numa “morte simbólica” e no “renascimento” para uma nova vida, vida esta consagrada ao òrìsà. Dentro desse processo, a primeira parte é dedicada a uma “gestação simbólica” em que se reproduz a vida no ventre materno. O novo indivíduo “nasce” e como acontece em território yorùbá tem lugar o Àkosèjayè.
            O indivíduo nasceu, foi verificado o seu destino (odù) e precisa receber um nome, o qual será anunciado em cerimônia pública, também denominada de Ikómojáde ou “Dia do nome”.
            No Brasil, nem sempre o nome é escolhido pelo Bàbálòrìsà ou Ìyálòrìsà, há casos em que o iniciado tem que receber o nome através de “sonho”.
            Pelas características dos Orúko  encontrados entre os adeptos do Candomblé brasileiro, percebemos que se tratam de Orúko àbíso, e ainda que, na maioria das vezes, fazem referência ao òrìsà individual daquele indivíduo:
“...Um dos aspectos importante que define cada grupo de iniciados é o fato de trazer diante do nome de iniciação um nome genérico comum a todos os que pertencem a um determinado òrìsà: Òrìsàlá – Iwin (Iwin-tólá, Iwin-múìwá, Iwin-solá, Iwin-dùnsí); Obalúaiyé – Iji (Iji-lánà, Iji-bùmi, Iji-dare); Nana – Na (Na-dógiyá, Na-jide); Sangó – Oba (Oba-téru, Oba-bìyì, Oba-tosi) (Juana Elbein dos Santos, 2002, p. 35).   
            Diferentemente do que ocorre em território Yorùbá o novo nome não é anunciado por um membro mais velho da comunidade, é o próprio Òrìsà quem o proclama.
            Depois de toda essa exposição o que  queremos deixar para reflexão é o seguinte: vimos que entre os Yorùbá tradicionais a escolha do nome é de vital importância, pois acreditam que ele irá refletir diretamente no comportamento e na vida daquele indivíduo, por que então em algumas de nossa “Casas de santo” a pronúncia desse novo nome é um tabu? Chegando mesmo em algumas delas  a ser omitido até mesmo do filho-de-santo!
            Se estivermos reproduzindo a família e a comunidade Yorùbá dispersadas pelo tráfico de escravos no passado, por que não fazer desses costumes uma prática mais natural? Ou habitual?

            Referências Bibliográficas:

- Projeto final dos alunos do “Programa de Idioma Yorùbá”, oferecido pela Universidade de Geórgia, dentro do “Programa de Idiomas Africanos”, no período de 1996 à 1998 (www.uga.edu/aflang/YORUBA/ODUDUWA);

            - Santos, Juana Elbein dos. “Os Nagô e a morte: Pàde, Àsèsè e o culto Égun na Bahia”, Vozes, 1986;
- Sikiru Salami (Prof. King). “Ogum. Dor e Júbilo nos Rituais de Morte”, Editora Oduduwa, 1997;

- Texto: “Nigéria: um país de contrastes”, por Ulisses Manaia da Silva, 2007


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